Criação literária no ciberespaço

fanfictions

Autores

  • Christie Szwako-Bellini Instituto Federal do Paraná (IFPR) - Campus Paranavaí Autor
  • Jéssica de Cássia Pereira Instituto Federal do Paraná (IFPR) - Campus Paranavaí Autor
  • Gabriela Fujimori da Silva Instituto Federal do Paraná (IFPR) - Campus Paranavaí Autor

Palavras-chave:

Fanfictions, Ciberespaço, Criação literária

Resumo

Nas últimas décadas, tem-se observado um constante avanço tecnológico na sociedade. Neste cenário contemporâneo, as inovações possibilitam e requerem uma nova dinâmica nos fluxos de informação e na velocidade de produção e, ao encontro dessas necessidades, o advento da internet introduziu alterações significativas na forma de trabalhar, de viver e de se comunicar.

Em meio ao espaço digital, surgem novos paradigmas de produção literária, alterando os modos de produção, circulação e recepção dos textos. Nesse sentido, este trabalho tem como objetivo analisar o caso das fanfics, uma das várias modalidades ficcionais de escrita presentes no ciberespaço, a fim de compreender o funcionamento desse gênero.

O filósofo Pierre Levy, em Cybercultura [1999], analisa que a World Wide Web favorece a inteligência coletiva, na medida que o mundo virtual caracteriza-se como um ponto de encontro, promovendo a comunicação entre seus participantes. Levy distingue os mundos virtuais em dois tipos: o primeiro envolve instalações off-line de artistas, já o segundo, abrange os mundos acessíveis por meio de uma rede e, por isso, abertos à interatividade. As obras off-line trabalham para constituir “ilhas de originalidade e criatividade fora do fluxo contínuo de comunicação” [LEVY, 1999, p.146]. Por sua vez, os mundos virtuais online são meios de comunicação interativos, funcionam como um “contexto dinâmico acessível a todos e memória comunitária coletiva alimentada em tempo real” [LEVY, 1999, p.146].

Nesse segundo tipo de mundo virtual é que estão as chamadas fanfictions, virtualmente conhecidas como fanfics ou ainda como fic. Conforme explica Clemente [2013], “A palavra fanfiction surge da junção das palavras no inglês fan e fiction designando assim uma história fictícia derivada de um trabalho de ficção já existente, sendo assim escrita por um fã da obra original, fã de ficção” [CLEMENTE, 2013, p. 61]. Desse modo, fanfiction é uma história criada por um fã, o qual utiliza os espaços comuns à obra, tais como personagens, trama e conceitos. São histórias produzidas por fãs de séries televisivas, filmes, bandas e artistas, as quais são publicadas em plataformas, tais como sites, blogs, rede social e fanpages.

O fã/coautor, dentre as atividades desenvolvidas, tenta preencher lacunas deixadas pelos autores das obras originais, criam episódios extras, novos desfechos, ou ainda, especulam o que poderia ter acontecido se um determinado fato ocorresse de forma diferente. A exemplo, o conhecido romance Crepúsculo, do original Twilight, da escritora americana Stephenie Meyer, recebe adaptações no Wattpad (https://www.wattpad.com), um dos sites mais conhecidos entre os jovens, em que se pode criar, amplificar histórias, em uma comunidade com mais de sessenta e cinco milhões de pessoas. No Wattpad, a frágil personagem Bella ganha, por exemplo, nova personalidade, tornando-se uma jovem com características feministas, ou ainda, a criação de novos capítulos em que a ênfase está em personagens secundários, como o caso do vampiro Jasper.

Para Vargas (2005), o autor de fanfiction “é aquele leitor que, ao fazer esse preenchimento das lacunas, vai além ao seu processo de interpretação e encoraja-se a registrar seu trabalho, fruto de suas especulações, que se torna mais elaborado à medida que passa a ser escrito” [VARGAS, 2005, p. 13]. Nesse sentido, a construção textual é realizada a partir do repertório pessoal de cada leitor, que a partir de suas vivências, não apenas compreende a história, mas preenche lacunas, amplia enredos, evidencia detalhes.

Hauser, em Sociologia del Arte Sociologia del Público (1977), traz reflexões sobre a sociologia da literatura e a relação entre autor, obra e leitor. Analisa a obra de arte como uma construção dialética, relação mútua em que autor e auditório fazem uma troca de conhecimentos e experiências. Ou seja, uma conversa que se estabelece entre autor e público mediante uma ação recíproca, pois o texto é um conjunto de esquemas funcionais, e quem irá acionar tais sistemas será o leitor. Assim, a vivência artística se dá enquanto transformação da produção e cria-se uma relação que passa de criador x receptor, a criador x receptor x (re)criador, já que o leitor será um novo escritor a partir da leitura realizada, ou seja, (re)criará situações.

Sobre a legalidade das fanfics, a legislação sobre direitos autorais, Lei de Direitos Autorais - Lei 9610/98, diz que é permitido que alguém use as ideias anteriormente concedidos para fazer paródias ou paráfrase, conforme Art. 47. “São livres as paráfrases e paródias que não forem verdadeiras reproduções da obra originária nem lhe implicarem descrédito”. Além disso, discute-se a utilização de nomes próprios, os quais não podem ser patenteados, nesse sentido, qualquer um poderia usar nomes de personagens ou de artistas para fazer fanfics.

No entanto, há também quem defenda que os ficwriters, quem escreve fanfics, violam os direitos de autor das obras que utilizam, já que utilizam personagens, universos e argumentos próprios da história original. O fato é que, “na sua esmagadora maioria, os autores originais preferem ignorar estas violações, pois na fanfiction, os textos são disponibilizados abertamente sem ter o objetivo de ganhar lucros com isso. Como anteriormente dito, o objetivo máximo deste fenómeno é uma partilha de experiências entre escritores e leitores” [Artes & Artes, 2019].

Para Lévy [1999, p. 146], o ciberespaço é o principal laço de comunicação, de transações econômicas, de aprendizagem e de diversão das sociedades humanas, concluindo que, “assim como o cinema não substitui o teatro, mas constitui um gênero original com suas tradições e códigos originais, os gêneros emergentes da cibercultura [...] não substituirão os antigos”. Nesse contexto, as fanfictions aproximam pessoas de todo o mundo, as quais compartilham de gostos literários, musicais, televisivos, etc, as quais dialogam e recriam histórias por meio da internet. Trazem suas experiências vivenciadas online ou não, e discutem, disseminam suas interpretações e opiniões.

Referências

Artes & Artes. Made2Web Digital Agency. (2019) Os direitos de autor na era digital: o caso do fenômeno fanfiction. 21 de janeiro de 2019. [https://www.arteseartes.info/os-direitos-de-autor-na-era-digital-o-caso-do-fenomeno-fanfiction-72__trashed/]. Acesso em set. 2019.

BRASIL. Lei no. 9.610, de 19 de fevereiro de 1998. Altera, atualiza e consolida a legislação sobre direitos autorais e dá outras providências. Diário Oficial [da República Federativa do Brasil], Brasília [online], 20 fev. 1998. [http://www.dou.gov.br/materias/do1/do1legleg19980220180939_001.htm]. Acesso em set. 2019.

Clemente, Bianca Jussara Borges. (2013) O uso do fanfiction nas aulas de produção textual no ensino médio. Rio de Janeiro: UFRJ/ Faculdade de Letras/ Programa Interdisciplinar de Pós-Graduação em Linguística Aplicada.

Hauser Arnold. (1977) Historia Social de La Literatura Y El Arte . 4- Sociologa del Arte Sociologia del Publico. Barcelona : Labor. p. 549-687.

Lévy, Pierre. (2009) Cibercultura. (Trad. Carlos Irineu da Costa). São Paulo: Editora 34.

Vargas, Maria Lúcia Bandeira. (2005) Do fã consumidor ao fã navegador: o fenômeno fanfiction. 210f. Dissertação (Mestrado em Letras), Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade de Passo Fundo, Passo Fundo.

Downloads

Publicado

12-12-2019

Como Citar

Szwako-Bellini, C., de Cássia Pereira, J., & Fujimori da Silva, G. (2019). Criação literária no ciberespaço: fanfictions. Semana de Tecnologia da Informação do IFPR Campus Paranavaí, 1(1). https://tecnoif.com.br/periodicos/index.php/setif/article/view/490

Artigos Semelhantes

61-70 de 81

Você também pode iniciar uma pesquisa avançada por similaridade para este artigo.